MANAUS (AM) – Com a mensagem de que Èṣù não é Satanás e em defesa da liberdade de crença e de culto das religiões de matriz africana, a 4ª Marcha para Èṣù reuniu, nesta sexta-feira, 28, lideranças religiosas e movimentos da sociedade civil no Centro Histórico de Manaus. Com o lema “O Povo da Esquerda não nos abandona”, o ato chamou atenção para denúncias de intolerância e racismo religioso contra povos de terreiro.
A concentração ocorreu na Praça Heliodoro Balbi, conhecida como Praça da Polícia. De lá, os participantes seguiram pelas avenidas 7 de Setembro e Eduardo Ribeiro. A programação terminou com uma Gira de Exú, realizada na Rua Dr. José Clemente, com a Avenida Eduardo Ribeiro.
O coordenador-geral da ARATRAMA, Xɛ́byosɔnɔ̀n Ọba Méjì Fataɖagbenɔ um nyi Alberto Jorge Silva, afirmou que uma das principais mensagens da marcha é cobrar das forças de segurança uma atuação imparcial e respeitosa em relação às religiões de matriz africana. Entre as reivindicações está a crítica ao uso do artigo 42 do Decreto-Lei nº 3.688/1941, a Lei de Contravenções Penais, que trata da perturbação do sossego. Segundo os organizadores, o dispositivo estaria sendo utilizado de forma seletiva contra povos de terreiro.
“A nossa mensagem para todo o Brasil este ano na Marcha de Manaus vai para a Polícia Militar e para a Polícia Civil. Chega desse conluio de oficiais superiores, delegados, sargentos, soldados e agentes policiais de basear em uma legislação caduca de 1941, se acharem no direito de entrar nas nossas casas, se apropriarem dos nossos instrumentos sagrados, profanarem e de forma sacrílega levar os nossos instrumentos sagrados para as delegacias e fazer indiciamento de pais e mães de santos como de frequentadores de Axé”, afirmou.
Alberto também criticou o que classificou como uma relação entre forças de segurança e igrejas neopentecostais e afirmou que pretende recorrer à Justiça para contestar a legislação. “Chega de intolerância, chega de um Estado brasileiro regido pelo neopentecostalismo, chega desse conluio entre igrejas neopentecostais e comandantes de polícias militares em todo o Brasil. Isso é um escândalo, isso é um escárnio”, disse.
Relato de agressão
Durante a marcha, Alberto também relatou ter sido hostilizado e agredido por um homem. Segundo o coordenador, a situação ocorreu durante o ato e envolveu ainda uma repórter que acompanhava a manifestação.
“Estávamos aqui na via, a Polícia Militar conseguiu identificar uma pessoa a desacatar contra nós, a nos desrespeitar, deu uma volta na praça, tomou o carro, tentou me agredir, tomou a repórter e me agrediu. Eu fui achincalhado, tinha dado padê a Exu, não estava com a farofa de cachaça, me jogou farofa, ele usou de suas palavras chulas, chulas, de chulas, de palavrões. Eu não fiz nada, para ele aprender a respeitar, porque a Polícia deveria ter prendido ele, feito auto de prisão, auto de intolerância religiosa, de racismo religioso, e não fez”, contou.
A organização afirma que episódios de interrupção de celebrações, abordagens policiais, apreensão de instrumentos sagrados e constrangimento de lideranças estão entre as situações que motivaram as reivindicações apresentadas durante a marcha.
Significado de Èṣù
Para o Babalorixá Abner Rodrigues de Oxum, Èṣù representa elementos ligados à abertura de caminhos, à comunicação e ao movimento dentro das tradições de matriz africana. “Exu pra nós é o início, é a abertura, é a porta, é o caminho, é o mensageiro, é a esfera, é o movimento da terra, é o movimento que há no universo. É o nosso porta-voz diante dos orixás, de todas as línguas, nacionalidades, culturas”, disse.
Abner também defendeu o direito das religiões de matriz africana de exercerem seus cultos em diferentes espaços, assim como ocorre com outras tradições religiosas. “A importância da marcha de Exu se dá para cobrar do poder público e para que os nossos direitos, que já existem e estão na Constituição Federal, o nosso direito de culto, que é legalmente constituído, a nossa Lei de Igualdade Racial Federal, que existe, e que nos garante a igualdade, nos garante fazer nosso culto, tanto no nosso tempo, como na rua, como na casa, assim como sejam respeitados, assim como as outras religiões são”, ressaltou.
A marcha também busca combater a associação de Èṣù à figura de Satanás. Para os participantes, a divindade possui significado próprio dentro das tradições de matriz africana. Abner ressaltou que o direito ao culto deve ser garantido de forma igualitária.
“O católico pode ir à missa, pode ir para a procissão, o protestante pode ir no culto, pode ir na marcha de Jesus, pode ir a Ponta Negra, a praia, fazer culto, assim como o católico pode fazer também”, concluiu.
A manifestação ocorre, segundo os organizadores, em meio a denúncias de intolerância e perseguição contra comunidades de matriz africana. O movimento defende o respeito aos terreiros como espaços sagrados e reivindica igualdade de tratamento por parte das instituições públicas.
A manifestação foi realizada pela Associação de Desenvolvimento Sociocultural Toy Badé e organizada pela Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana (ARATRAMA). O evento reuniu Babalorixás, Iyalorixás, Dotés, Pais e Mães de Santo, Umbandistas, Juremeiros e representantes do Tambor de Mina Jeje e Nagô.
Com informações da Revista Cenarium


